Anomalias e doenças

Uso de maconha na gravidez afeta o desenvolvimento cerebral do bebê





Nota: Este texto não tem como objetivo questionar o uso medicinal e devidamente prescrito dos agentes presentes na Cannabis sativa. Antes, os estudos mencionados no mesmo se aplicam apenas aos efeitos de seu uso indiscriminado como entorpecente durante a gestação.

Quando comparada com o cigarro e suas mais de 4700 substâncias tóxicas, a maconha até parece inofensiva. Tanto, que não são poucas as mulheres grávidas que acreditam encontrar nela uma forma de conciliar a dependência química com a necessária abstinência durante a gestação. Entretanto, estudos recentes estão mostrando que podemos estar cometendo um grave erro ao usar o cigarro como régua para medir o alcance dos efeitos da Cannabis. Até porque o fato de ela não produzir os mesmos efeitos do tabaco não quer dizer, obrigatoriamente, que ela não produza efeito nenhum.


A diferença, neste caso, é que estes efeitos não são imediatamente visíveis. Pelo menos quando falamos dos exames pré-natais. E é aí que mora o perigo. As futuras mães que, por um motivo ou outro, fazem uso da maconha durante a gestação tranquilizam a si mesmas ao perceberem que, aparentemente, não há nada de errado com o bebê que veem na tela. Infelizmente, não poucas vezes essa perfeição será desmascarada apenas alguns anos mais tarde, e aquilo que “passou batido” nas imagens se revelará através de características não detectáveis, pelo menos não na ultrassonografia.

Parece não haver mais dúvidas sobre a correlação existente entre a exposição à maconha na fase fetal e certos distúrbios comportamentais importantes em crianças. Aqui mesmo no Brasil, um estudo desenvolvido pela Unifesp comprovou que as crianças que foram expostas à droga ainda no útero tornavam-se mais irritáveis e impulsivas, além de demonstrarem dificuldades no aprendizado e em tomadas de decisões, estando esta última característica relacionada à memória de trabalho – aquele armazenamento de informações para “consulta” em momentos de necessidade. O que ainda não se conhecia era a raiz dessa correlação. Felizmente, após muitas pesquisas, começam a aparecer as primeiras respostas.

Ao que parece, o uso da maconha durante a gravidez tem o efeito de prejudicar a plasticidade do cérebro infantil. Talvez você não consiga compreender bem do que isso se trata, certo? Mas, entenda bem: há uma razão para nossa espécie dispor de uma infância tão longa. Nossa longa dependência dos mais velhos está diretamente relacionada àquilo que nos distingue como espécie. Em suma, seres humanos foram projetados para aprender. Mas nenhum período é mais favorável para isso do que a infância. Por dois motivos: primeiro, por que não precisamos nos preocupar com a nossa própria sobrevivência por um bom tempo. E segundo – e não coincidentemente – nosso cérebro é extremamente maleável nessa fase da vida, o que faz com que “absorvamos” tudo o que nossos sentidos são capazes de captar e – o mais importante – nossa mente é capaz de abstrair.

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Seja qualquer uma destas duas circunstâncias prejudicada, e nosso potencial intelectual e cognitivo sofrerá idênticos prejuízos. E no caso das crianças cujas mães fizeram uso da Cannabis durante a gravidez, estamos falando da segunda hipótese. Uma pesquisa desenvolvida pelo dr. Hanan El Marroun, da Erasmus University Medical Center, na Holanda, mostrou através de exames de ressonância magnética que, apesar de não haver nenhuma alteração no volume cerebral – o que explica a aparente ausência de qualquer anormalidade no exame pré-natal – o córtex pré-frontal destas crianças dispõe de uma estrutura anormalmente rígida. E embora em todos os casos avaliados tenha havido o uso eventual também do tabaco durante a gravidez, a mesma característica não foi encontrada em nenhuma das crianças cujas mães fizeram uso apenas do cigarro e, tampouco, nos casos onde não houve exposição a nenhuma das duas substâncias.

Embora muitos questionamentos ainda possam ser levantados à partir destes resultados – na verdade, quase sempre podem – é certo que eles também vêm para corroborar certas verdades que já conhecemos mas que, por um motivo ou outro, às vezes podem passar despercebidas. A primeira é que ser “natural” nem sempre é sinônimo de ser “totalmente benéfico”. E a segunda, mais especificamente a respeito das futuras mamães, é que não é apenas a história do bebê que está sendo construída durante a gravidez. A história da mãe também será grandemente afetada por esses poucos meses. Não importam o quão melhores sejam os recursos que possam ser oferecidos às crianças; o aproveitamento que elas farão destas facilidades por toda a vida dependerá diretamente da estrutura que lhes foi concedida durante aqueles poucos meses de preparação, cujas falhas, ao que podemos perceber, nem sempre são captáveis pelos nossos olhos, naturais ou mecânicos. Pelo menos, por enquanto.

Sites: neurosciencenews/ babyblogbr
Artigo: Prenatal Cannabis and Tobacco...
Imagens: Reprodução/ ganjagirlsbr/ coisademae
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