Você também tem medo do glúten? Entenda porque a “dieta sem glúten” não é para todo mundo

O que o aviso “contém glúten” diz á você? Levando em conta a explosão de “dietas sem glúten” na mídia, e a taxa absurdamente crescente de pessoas que, dia após dia, se propõem a evita-lo, não fica muito difícil julgar a ideia que o público em geral faz dessa proteína. De uns tempos pra cá, dizer que um alimento leva glúten tornou-se quase o mesmo que dizer: “se quiser levar, é por sua conta e risco”. Mas acredite: se você não faz parte do 1% que tem doença celíaca, ou não possui de fato qualquer intolerância ao glúten, esse aviso não deveria te dizer absolutamente nada. Ele simplesmente não é para você.

Entretanto, isso não tem impedido que cada vez mais pessoas optem livremente por bani-lo de sua dieta. Numa espécie de “efeito placebo”, pessoas do mundo inteiro escolhem, de livre e espontânea vontade e sem qualquer orientação médica, encarar uma dieta isenta de glúten, realmente acreditando que isso lhes trará algum benefício. E os números estão crescendo.  Pesquisas feitas nos Estados Unidos em 2008 mostraram que aproximadamente 8% da população evitava o glúten. Em 2015, esse número já tinha subido para 25%, o que equivale a um quarto da população.

O mais irônico disso tudo é que, quando questionadas sobre o porquê da mudança, a maioria destas pessoas é obrigada a reconhecer que não dispõe de nenhuma justificativa plausível para isso. Parece que o simples fato de haver um aviso na embalagem já é motivo suficiente para ter receio de consumir o produto. Mas a verdade é que ele só está ali por uma razão: respeito às pessoas celíacas, que efetivamente precisam evitar esses produtos. Não se trata de uma opção. Não se trata de “não comer para perder uns quilinhos”. Trata-se de não comer para evitar uma série de efeitos nocivos que se desencadeiam no organismo dessas pessoas, que se não forem refreados, podem levar à morte do indivíduo.

Entenda bem: uma dieta sem glúten é particularmente difícil porque ele está em quase tudo que faz parte da alimentação do homem moderno. Trata-se de uma proteína presente no trigo, centeio, cevada e no malte. Acontece que ele não é “digerível”. O corpo não consegue catabolizar essa proteína em aminoácidos. E o que faz com ele? Nada. Numa pessoa “normal”, ele simplesmente “passa”. Mas ao chegar ao intestino de uma pessoa celíaca, a história é bem diferente. O sistema imunológico “confunde” o glúten com micróbios invasores, e nessa guerra o intestino é irreversivelmente afetado. As microvilosidades, aquelas “dobrinhas” em sua superfície, sofrem atrofia. E à medida que isso ocorre, ele não mais consegue absorver devidamente os outros nutrientes.

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Assim, não há alternativa a não ser eliminar qualquer fonte de glúten, o que faz com que a alimentação de um celíaco baseie-se estritamente em carboidratos simples (frutas e verduras), outras proteínas (especialmente carnes) e gorduras. E é aqui que mora o perigo para pessoas que adotam desnecessariamente esse tipo de dieta. Carboidratos complexos constituem a principal fonte de energia. Quando você os substitui por proteínas e gorduras, aumentam significativamente suas chances de sobrepeso. É óbvio que celíacos passam por um acompanhamento médico frequente para que isso não ocorra. Mas o mesmo não se pode afirmar de pessoas que adotam a dieta por iniciativa própria.

O mesmo ocorre quando se substitui os alimentos tradicionais pelos produtos sem glúten. “[No processo de fabricação] você tem que substituir o glúten por algo que faça esse alimento palatável, então você precisa carrega-lo de gordura e açúcar. Uma bolacha comum tem 70 calorias. Sem glúten, o mesmo biscoito pode chegar a 210 calorias”, explica o médico italiano Alessio Fasano, diretor do Centro de Pesquisas Celíacas nos Estados Unidos. Além disso, é importante salientar que quando se abre mão do glúten, elimina-se, por tabela, outros nutrientes presentes nos alimentos que o contém, o que pode levar a deficiências nutricionais.

Num espasmo de excesso de zelo, muitos pais tem imposto uma dieta sem glúten aos seus filhos na esperança de, com isso, evitar que eles desenvolvam a doença celíaca, ou apenas “porque esta é a forma mais saudável de alimentar-se”. Além dos riscos já mencionados, ainda expõem esses pequenos a um sofrimento que, segundo o gastroenterologista pediátrico Norelle R. Reilly, do Centro Médico da Universidade de Columbia em Nova York, não tem o menor propósito. “A percepção de que uma dieta sem glúten é saudável por si só é um mito. Não há nenhuma evidência científica de que uma dieta sem glúten traz benefícios às pessoas que não tem a doença celíaca, alergia do trigo ou sensibilidade ao glúten”, explica.

Fontes: bbclivescienceacelbra/  
 Imagens: Reprodução/ superbomguiadadieta/