Animais podem ter insanidade mental e serem portadores de doenças como TOC, ansiedade, depressão, automutilação e tricotilomania

Ver um cachorro correndo atrás do próprio rabo é uma cena bem comum, engraçada até. Da mesma forma, quando vemos alguém andando de um lado para o outro, logo pensamos que essa pessoa provavelmente esteja ansiosa por algum motivo. Mas, ao vermos um animal no zoológico agindo assim, jamais pensamos que ele possa estar enfrentando um momento de ansiedade.

A bióloga Laurel Braitman também nunca havia sequer cogitado a hipótese de que Oliver, seu cão da raça bernese montanhês, pudesse ter algum tipo de distúrbio mental. Embora ele sofresse de uma aversão absurda à solidão e comesse tudo o que NÃO era comida, para Laurel ele era apenas diferente. Até o dia em que, num surto por se ver sozinho no apartamento, Oliver simplesmente arrancou o ar condicionado da parede, comeu os fios e atirou-se pelo buraco, numa queda de nada menos que QUATRO andares. Milagrosamente, sobreviveu. Mas essa façanha lhe rendeu alguns ferimentos sérios e uma inusitada receita de Prozac e Valium, dois psicofármacos usados em humanos.

Nunca tinha visto isso.”, ela conta. “Jamais pensei que animais pudessem ter transtornos mentais.” Ao buscar qualquer literatura que a ajudasse a entender melhor o assunto, Laurel deparou-se com um imenso vazio acadêmico, o que a forçou a empenhar-se numa busca por informação.  Ao longo de mais de sete anos, através de conversas com treinadores, veterinários e cientistas da área (alguns até de outras partes do mundo), Laurel mergulhou fundo num universo até então praticamente ignorado: o da insanidade animal.

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Quem cria um pet sabe muito bem o que é ver um cãozinho se esconder por medo do barulho de fogos de artifício, “chorar” quando o dono sai para trabalhar e pular de alegria quando ele chega, ou até mesmo girar e sacudir a cauda de ansiedade na hora da comida ou da brincadeira. Essas emoções não são apenas legítimas, como necessárias para a sobrevivência. No entanto, assim como nos humanos, elas podem vir em momentos em que não são necessárias, ou em doses exageradas. É precisamente aí que os distúrbios começam. “Assim como nós, os animais sentem medo ou ansiedade em ocasiões desnecessárias e desenvolvem compulsões como Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e várias outras formas de distúrbio mental, como ataques de ansiedade e depressão“, explica Laurel. Ela também menciona diversos casos de estresse pós-traumático, automutilação e tricotilomania (ato de arrancar pelos ou penas).

Onde os remédios entram nessa história? Como psicofármacos receitados para pessoas podem ajudar meu cão ou gato? Laurel nos lembra de forma brilhante que, ao utilizar esses medicamentos em animais, nada mais fazemos que retornar ao seu uso original. Até hoje, novos medicamentos para doenças mentais são inicialmente testados em animais: ratos, porcos e gorilas nos ajudaram a entender os distúrbios humanos e, agora, nós estamos usando nossos remédios neles.

Mas ATENÇÃO: lembre-se que estes remédios são controlados e, da mesma forma como jamais devemos tomá-los por conta própria, o mesmo se aplica aos nossos amigos animais. Até porque, em muitos casos, eles podem sequer ser realmente necessários: Se você levar seu cão que persegue compulsivamente a própria cauda ao terapeuta veterinário, a primeira reação deste não é pegar o bloco de receitas. Ele vai perguntar sobre a vida do seu cão. Com que frequência ele passeia? Ele se exercita? Alimenta-se bem? Socializa com outros animais e pessoas? Muitas vezes, uma pequena mudança no estilo de vida e muita paciência por parte dos criadores podem ser as chaves para a recuperação da saúde mental do pet.

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Talvez nunca cheguemos ao ponto de saber o que realmente se passa na cabeça de nossos amigos de outras espécies. Mas, como Laurel ressalta: “Ainda que sejamos todos humanos e possamos eventualmente falar a mesma língua, nem sempre nossa comunicação é eficaz no que diz respeito a falar de nossos sentimentos e emoções“. É exatamente aí que desaba o muro que nos separa dos outros animais. Não é preciso ser um veterinário ou cientista para perceber que um animal está feliz, com medo ou irritado. Assim, ao tentar compreender o sofrimento animal, levamos de brinde um pouco mais de compreensão do sofrimento humano.  Sendo assim, todos devemos nos sentir encorajados a observar e enxergar um pouco mais de perto e profundamente as criaturas com quem dividimos o planeta. No final, seja tentando entender seu parceiro humano, seja tentando entender seu amigo animal, “seremos sempre um animal imaginando a experiência emocional de outros animais“.

Fontes: veja  Imagens: patasnaareia/proparnaiba/simpsiumvet/webcachorros/bolsademulher